Nada do que não é fruto da nossa escolha existe de verdade além daquilo que existe na nossa cabeça. Aquilo que você crê em demasia e busca como crença pessoal é crença pessoal e nunca abandonará o campo da sua individualidade, que foi moldada ao longo do seu ser até este momento, e nunca deixará de ser, mesmo que outros acreditem junto com você. Sua liberdade, sua religião, seu complexo de superioridade ou inferioridade, sua crença no bem ou no mal, seu credo em achar que o mundo vai ruir ou melhorar, sua gratidão ou ingratidão em relação às coisas, sua justiça ou injustiça pessoais, seu pessimismo ou otimismo; nada disso vem de um mundo que conspira em favor ou contra a confirmação disso; é a nossa mente quem monta os quebra cabeças a fim de fazer valer as nossas ilusões. O problema é que fora delas um milhão de homens e mulheres estão sofrendo sem que a gente entenda de verdade.
Estrela de Cinco Pontas
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domingo, 18 de março de 2012
sábado, 10 de março de 2012
Domingo de Ramos
Vou embora
Sempre
Vou embora
Dói, passeia com angústia
Sofre vai
embora
com resigno comedido
Não traz o espelho
Não traz o reflexo
Vou embora
Sôfrego, acaba
Termina
Deixa pra trás
Subtraz
Comedido, retido, contido
Não tem mais
Vou me embora
Levarei de lembrança imagens
Repetições frias, inexistentes
Vou embora imagens
Não minhas, nunca serão
Vou-me embora doído
Cansado, deixado pra traz
Largarei a juventude
Largarei o descanso e o cansaço
Largarei a solidão e imensidão tardia
O não passo, a não estadia voluntária dissoluta
Levarei imagens da escuridão
Feliz
Quadro a quem não se diz
Jamais
Partirei
Egoísmo para lá
Sobras de eufemismos para cá
Tudo doença sombria
A escuridão me satisfaz
Metade de mim escondida
Numa saudade inconveniente
Daquilo que não se faz
Deixa vai, deixa pra trás
Esconde debaixo do que
Que visito no sono íntimo
Profundo
Onde reina temporária escuridão
Caem preguiçosos, como a manta cascateada
Brilha sob a luz, águas escuras ondulantes
Abraçando-me plenamente
Guarda tudo com zelo
Debaixo de cada cama ou coma, caixa ou túmulo
Debaixo de cada sílaba
Parecendo sempre fazer
Onde tudo o que está escrito
Está escrito
E que se não puder
Não se poderá não ser lido
Vou embora vai
Brincando com a lógica de frente pra trás
Negando o não da negação
Pausando em cada verso um outro não
Do que não posso negar não negando
Vou embora
Carregando o cesto de sílabas
Porteá-la-á substancialmente
As estrelas sabem quando olho
Não quanto olho
Carregando o peso do dia
Escuridão faz sombras
Luz faz sombras
Mas há quem pede...
Vou embora...
Vou embora vou
dormir vou
sonhar
com a escuridão.
Sempre
Vou embora
Dói, passeia com angústia
Sofre vai
embora
com resigno comedido
Não traz o espelho
Não traz o reflexo
Vou embora
Sôfrego, acaba
Termina
Deixa pra trás
Subtraz
Comedido, retido, contido
Não tem mais
Vou me embora
Levarei de lembrança imagens
Repetições frias, inexistentes
Vou embora imagens
Não minhas, nunca serão
Vou-me embora doído
Cansado, deixado pra traz
Largarei a juventude
Largarei o descanso e o cansaço
Largarei a solidão e imensidão tardia
O não passo, a não estadia voluntária dissoluta
Levarei imagens da escuridão
Feliz
Quadro a quem não se diz
Jamais
Partirei
Egoísmo para lá
Sobras de eufemismos para cá
Tudo doença sombria
A escuridão me satisfaz
Metade de mim escondida
Numa saudade inconveniente
Daquilo que não se faz
Deixa vai, deixa pra trás
Esconde debaixo do que
Que visito no sono íntimo
Profundo
Onde reina temporária escuridão
Caem preguiçosos, como a manta cascateada
Brilha sob a luz, águas escuras ondulantes
Abraçando-me plenamente
Guarda tudo com zelo
Debaixo de cada cama ou coma, caixa ou túmulo
Debaixo de cada sílaba
Parecendo sempre fazer
Onde tudo o que está escrito
Está escrito
E que se não puder
Não se poderá não ser lido
Vou embora vai
Brincando com a lógica de frente pra trás
Negando o não da negação
Pausando em cada verso um outro não
Do que não posso negar não negando
Vou embora
Carregando o cesto de sílabas
Porteá-la-á substancialmente
As estrelas sabem quando olho
Não quanto olho
Carregando o peso do dia
Escuridão faz sombras
Luz faz sombras
Mas há quem pede...
Vou embora...
Vou embora vou
dormir vou
sonhar
com a escuridão.
terça-feira, 6 de março de 2012
Declaração Subsidiária
Mulher deitada assim
Com os mamilos empinados para o alto de tudo
A boca brilhante e suculenta
Numa declaração mais sóbria do que tudo
- Mulher, sou louco pelos seus cotovelos.
Com os mamilos empinados para o alto de tudo
A boca brilhante e suculenta
Numa declaração mais sóbria do que tudo
- Mulher, sou louco pelos seus cotovelos.
Sinto sentir
Ah fogo que brilha por tantas coisas!
Clamo ao próximo dia como um próximo dia
Se houvesse uma embarcação para degustarmos a vida
Chamaria Menino
Saudade é uma imposição muito séria
Estou com saudades do sorvete que tomei esta tarde
E sinto falta da brisa que me bateu no rosto
Porque sempre importar com imposição
Sinto tristeza pela água que bebi uma vez transformada em amônia
Alegra-me a nuvem que passou lá no céu
Com cara de bebê e aspecto de algodão
Sinto cansaço pelas calçadas que pisamos
Pobres diárias o intactas o dia inteiro
Sinto pena dos pobres lençóis que só balançam
Mas se bem observo
Sinto inveja dos lençóis dançando ao som da música brisaica.
Andante assim, lentamente esvoaçada
Mexendo assim parece um samba
Fresca e com cores diversas
Ah varal, a epifania do conforto.
Na próxima vida quando houver pretendo ser um varal
Clamo ao próximo dia como um próximo dia
Se houvesse uma embarcação para degustarmos a vida
Chamaria Menino
Saudade é uma imposição muito séria
Estou com saudades do sorvete que tomei esta tarde
E sinto falta da brisa que me bateu no rosto
Porque sempre importar com imposição
Sinto tristeza pela água que bebi uma vez transformada em amônia
Alegra-me a nuvem que passou lá no céu
Com cara de bebê e aspecto de algodão
Sinto cansaço pelas calçadas que pisamos
Pobres diárias o intactas o dia inteiro
Sinto pena dos pobres lençóis que só balançam
Mas se bem observo
Sinto inveja dos lençóis dançando ao som da música brisaica.
Andante assim, lentamente esvoaçada
Mexendo assim parece um samba
Fresca e com cores diversas
Ah varal, a epifania do conforto.
Na próxima vida quando houver pretendo ser um varal
Zôom Lógon Echón
Uma traição aos meus próprios saberes
E a minha própria concepção de ir além
Joga-me de volta quando estamos
Refletidamente invisíveis no meio do caos
O universo me agradece
Mas dentre tantas coisas consideradas importantes
Eu fui surgir também
Cabe a ele sua decisão
De dentro pra fora
O fantástico miserável cérebro
De dentro pra fora
As cores e formas impositivas nos limitam
No de limite e dizem não:
Árvores, somente verdes
Águas, somente cristalinas
Tudo em três dados de dimensão
Cumprimento Largura Profundidade
Tudo em outro lado de dimensão
Cumprimento Largura e Razão
Profundidade obscurecida
Na profundidade ilusão
Conectar ao que
Largue lá o sentido purista das preposições
Sem saber como texto reto
Que sarcasmo e ironia é um defeito da visão
Era incrível aquele tempo em que falávamos
Tudo o que pouco pensávamos
Hoje penso mais coisas sobre meu prato de sopa
Do que sobre a sobra dos meus pensamentos
Que saudades de ser animal que imaginava tudo.
E a minha própria concepção de ir além
Joga-me de volta quando estamos
Refletidamente invisíveis no meio do caos
O universo me agradece
Mas dentre tantas coisas consideradas importantes
Eu fui surgir também
Cabe a ele sua decisão
De dentro pra fora
O fantástico miserável cérebro
De dentro pra fora
As cores e formas impositivas nos limitam
No de limite e dizem não:
Árvores, somente verdes
Águas, somente cristalinas
Tudo em três dados de dimensão
Cumprimento Largura Profundidade
Tudo em outro lado de dimensão
Cumprimento Largura e Razão
Profundidade obscurecida
Na profundidade ilusão
Conectar ao que
Largue lá o sentido purista das preposições
Sem saber como texto reto
Que sarcasmo e ironia é um defeito da visão
Era incrível aquele tempo em que falávamos
Tudo o que pouco pensávamos
Hoje penso mais coisas sobre meu prato de sopa
Do que sobre a sobra dos meus pensamentos
antrhopos míchaní
gynaíka míchaní
apò mechanés théos
Que saudades de ser animal que imaginava tudo.
domingo, 4 de março de 2012
A sua Rosa
Este poema foi escrito inspirado no amor que sinto pela minha mulher:
Que seja banal a sua moda
E que seus ciclos jamais estejam sincronizados
Apedrejem-nas por não serem tão homens quanto nós
Racionalmente propositais em fazer-se analíticas
(Na esperança de lhas deem à escola ou à rua o seu nome)
Que tenhamos medo de admitir que diante da força dos pulsos
[desfalece o braço
E que sempre detiveram sobre nós o poder
[que detemos sobre os outros
Que na mais turbulenta ocasião iluminam
[e enudecem todas as nossas ilusões
Podemos nos enganar sobre isto também
Mas que nunca permaneça obstáculo
Entre uma mulher e o seu direito de receber uma rosa
Natureza não se converte, maquia-se;
Porém se esta data...
Acontecerá de tudo ficar decrépito
Morto, sem graça
Levantar da cama pra quê?
Já nos roubaram a infância tão cedo...
Tudo que conheceremos envelhecerá,
Antes da hora.
Mas dê aquela frágil criatura implacável a sua rosa...
Que seja banal a sua moda
E que seus ciclos jamais estejam sincronizados
Apedrejem-nas por não serem tão homens quanto nós
Racionalmente propositais em fazer-se analíticas
(Na esperança de lhas deem à escola ou à rua o seu nome)
Que tenhamos medo de admitir que diante da força dos pulsos
[desfalece o braço
E que sempre detiveram sobre nós o poder
[que detemos sobre os outros
Que na mais turbulenta ocasião iluminam
[e enudecem todas as nossas ilusões
Podemos nos enganar sobre isto também
Mas que nunca permaneça obstáculo
Entre uma mulher e o seu direito de receber uma rosa
Natureza não se converte, maquia-se;
Porém se esta data...
Acontecerá de tudo ficar decrépito
Morto, sem graça
Levantar da cama pra quê?
Já nos roubaram a infância tão cedo...
Tudo que conheceremos envelhecerá,
Antes da hora.
Mas dê aquela frágil criatura implacável a sua rosa...
O Dever (?)
Não direi uma palavra
Nem uma só palavra sobre palavra
Enquanto olho não significa
Porque a poesia não deve dever
O artista não deve dever
O homem não deveria dever o dever
Assim prossegue o homem sem traves nos olhos
Vê-se o mar
Vê-lhe há mar
Vê-se a arte
Vê-lhe o apartar-te
Do quanto se faz parte
E enquanto a mar e arte
Para tantos o que há Marte.
Cabeças assim não se prescrevem
Porque elas teimam em ser menores
(Observando é claro que se menor for lido menor
[o olhar está cheio de traves e os pés de correntes
[e a cabeça está cheia de vento
[onde mora um pequeno duende que ri de tudo o que fazemos)
Para toda sombra existe uma luz
Para toda terra existe uma semente
E para toda arte existe uma parte que diz:
Arte para
Libertar-te?
Ou arte para
Militar-te?
Arte para obrigar-te a dever a sua parte?
O duende em minha cabeça me diz:
Libertas quae facere arte!
Frase XXIII
Não adianta politizar a uma nação de mal educados enquanto não educarmos uma nação de despolitizados.
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domingo, 26 de fevereiro de 2012
Bem e Mal
O bem e o mal existem. Se são entidades ou não, isso é individual. Se há no conceito de preservação da vida algo que não condiz com o universo é a desordem. O universo é o oposto do caos, ele tende à organização, ao equilíbrio, e assim é tudo o que lhe compõe. Nenhuma vida resiste ao desequilíbrio e pertubação, e do ponto de vista da vida, esse é o mal, o que pode destruí-la. O moralismo e a ética sobre esta ideia, talvez isso venha ser motivo de debates, uma vez que o desequilíbrio humano parte do nosso julgamento de valores sobre o mundo à nossa volta.
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
Não ignore, transforme!
No mundo humano sempre existiram pessoas curiosas e com um impulso a compartilhar as suas curiosidades com os demais. Egocentrismo, preocupação com o futuro, auto-afirmação, amor ao próximo, chame do que quiser, mas estas pessoas existem.
Antigamente (e eu falo de antigamente mesmo) imagino que se um homem não se dava com outro haveria duas opções: fugir dele para outro lugar ou matá-lo. Hoje em dia o planeta anda cheio, repleto de seres humanos, repleto de direitos humanos e repleto de regras morais e éticas chocando-se por aí tanto quanto há de estrelas explodindo no universo. O maior desafio da atualidade é coexistir e conviver.
Discordar tornou-se algo tão leviano e trivial que perdemos a chance de aprender a melhor das capacidades humanas na aquisição do conhecimento de vida: absorver, extrair, abstrair, transformar e eliminar, para começar tudo de novo.
Alguns param simplesmente no extrair da coisa, e se impacientam, esperam que a eliminação venha de fora, não de dentro. Eliminar é um dos processos mais difíceis no que diz respeito à informação que o nosso corpo e mente absorvem, e no aspecto da nossa convivência social, ela é pouco trabalhada. As pessoas se esqueceram de como respeitar ao outro. Os curiosos sempre vão compartilhar suas curiosidades, e sendo elas idiotas ou não, a validade destas informações não são nada mais que o julgamento de valores daquilo que esperamos por ideal. Não é verdade que não somos obrigados a conviver com certas idéias. Nós somos sim! Estamos aqui, vivos, vendo coisas. E agora, como coexistir?
O efeito de toda forma de violência ocorre quando não entendemos os passos da extração, abstração e transformação da informação a nosso favor (e de toda a sociedade!). Espera-se que aquilo não aconteça, que não exista ou não se manifeste. Pairamos na angústia da indignação sem descobrir uma solução simples para conviver com o problema. Esperamos que a solução venha de qualquer parte, menos de dentro, baseados numa concepção ilusória da felicidade plena. Perdemos a habilidade de perceber os limites, os lugares que não podemos ir e não iremos, por mais que essa angústia não nos abandone. O planeta não nos pertence, somos meros habitantes, e é uma pena quem tenta nos fazer acreditar no contrário. Não há mais lugares no mundo para nos escondermos da informação, porque hora ou outra ela simplesmente nos abraça sem ao menos darmos permissão.
O entendimento na absorção da informação nos transformaria em pessoas mais seguras, eficientes em transmitir os valores que esperamos de outras pessoas, ou de uma sociedade próxima àquela que idealizamos. Esperar que a informação não exista é desrespeitar a razão de existência de outro ser humano, suas crenças e seus valores aprendidos desde a infância. Julgar a informação é agir com arrogância, tomando como ponto de referência apenas a si próprio.
Eu não sou o primeiro a pensar sobre isso, estas idéias não são novidade alguma. O mais terrível para a mente é imaginar que há séculos lidamos com esta questão que parece nunca ser resolvida. Eis aí algo mais a ser digerido pelo meu cérebro.
"O que seria do mundo se não fosse as pessoas que tentaram mudá-lo?" - Karina Guedes
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Frase XXII
Nostalgia é uma doença mental que nos torna escravos da memória.
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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
Elevador
Num edifício de 70 andares
O vinho traz a embriaguez mais plena
O entre as pernas da moça tem mais sabor
O ar é mais puro
A água tem gosto
E o feijão não queima na panela
Quando o elevador atinge
O 71
O vinho traz a embriaguez mais plena
O entre as pernas da moça tem mais sabor
O ar é mais puro
A água tem gosto
E o feijão não queima na panela
Quando o elevador atinge
O 71
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A Soja
Na plantação de soja cospolitana
O agricultor das doze e cinquenta
Plantou duzentas mudas
Mas quando na colheita
Não nasceram quando deviam brotar
O mundo se acabou
E o agricultor foi mais feliz.
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quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
Uma fato solitário é mentira ou divagação.
Um fato entre duas pessoas é complô.
Um fato entre três pessoas é motim.
Um fato entre mais de quatro pessoas já se torna uma verdade inquestionável.
Deus acuda a sociedade.
quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
Frase XXI
Sonhos devem ser realizados, não idealizados.
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segunda-feira, 26 de dezembro de 2011
Frase XX
Uma mulher ferida pressupõe que não é valorizada ao invés de entender que não existem seres perfeitos.
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domingo, 25 de dezembro de 2011
A Barata
Resistes, ó barata, como o mais superior dos seres
O único que já sabe o que é sentir repulsa de si mesmo
E o único que vive temerosamente perante os seres
Mais superiores dos seres.
Vives, ó barata, como o espectro superior
Da nossa camada da cadeia alimentar
E alimenta-se.
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O Porco
Lama, lama, lama o dia inteiro
Rolar na lama
Ou na poça
Ou no banho da lavagem
E cheirar como cheira a um porco
Rosnando como rosna a um porco
Rosna um porco como bicaria uma ave para o abate
Este é o único que acredita que tem asas e viverá para sempre.
Rolar na lama
Ou na poça
Ou no banho da lavagem
E cheirar como cheira a um porco
Rosnando como rosna a um porco
Rosna um porco como bicaria uma ave para o abate
Este é o único que acredita que tem asas e viverá para sempre.
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O Suricate
Um suricate sóbrio entende que anda com a pança sobre a terra
E só ergue a cabeça para procurar.
E só ergue a cabeça para procurar.
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A Mula
Caminha aí, mula do peregrino
Nasceu só e morrerá só, comendo sua própria carcaça
Enquanto morre, remoerá sua própria morte
- Comi capim demais na vida
- Fiquei tempo demais de quatro quando deveria ter-me deitado
- Fiquei acorrentado demais
E saberá com ódio que dali a uma semana deixará de ser alguém
E só existirá enquanto outros existirem
E quem te lembrará alguém como não foi
Sabendo que teu ser só a ti será?
Uma mula serve apenas para ser mula
E sabe como ser mula
E anda como mula, senta-se como mula, sente-se como
E ali que vemos a mula e sabemos quão mula é
E sem que haja a dúvida ainda perguntamos
- És mesmo uma mula?
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quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
Frase XIX
Toda palavra, por mais breve que seja, tem o seu sentido lato. Vai da mente de quem fala, lê e escuta.
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sábado, 3 de dezembro de 2011
Cálice
Esta canção tem suas raízes históricas na repressão da ditadura em relação à liberdade de expressão, como muitos sabem, a proibição de poder manifestar o seu pensamento livremente. Penso que quando observo a sociedade atual, percebo que muitas coisas não mudaram, apenas foram mal disfarçadas. Fazem nosso povo acreditar em uma falsa autonomia de pensamento, e provavelmente a maioria não se sente reprimida porque sabe que pode dizer o que pensa, e por tal razão, muitos acreditam que a liberdade de expressão realmente acontece.
Isso seria válido afirmar se o que a maioria da sociedade pensa e expressa fosse digno de atenção. É claro que o que se vê é unicamente a manifestação da futilidade, de observações pequenas a respeito de um cotidiano limitado e que só faz sentido para quem se manifesta. Além do que, parece completamente proibido alguém se levantar e tentar trazer clareza a algum assunto polêmico, os mesmos assuntos que são tratados com tão pouco caso e respeito nos meios de comunicação de massa. E logo expressar realmente aquilo que se pensa acaba por ser reprimido por uma avalanche de reprovações voluntárias por parte daqueles que insistem em defender quem só prejudica a nossa vida.
Fala-se tanto em progresso e evolução da sociedade, mas a unica coisa que eu vi evoluir ao longo destes anos foi o número de tralhas que temos trazido para dentro de nossas casas, inspiradas por um consumo estúpido e desnecessário. Quando é que vamos falar do progresso e evolução em relação à coexistência da sociedade, e em relação de quem verdadeiramente está fudendo com a nossa vida? O governo? Não está fácil demais? Não está óbvio demais?
O brasileiro é preguiçoso sim, eu concordo, mas a classe média tende a dizer que a preguiça vem do pobre, que não trabalha, por isso é pobre. Entretanto a preguiça real poderia vir da maioria que não gosta e nem quer pensar. A preguiça poderia vir de verdade daqueles que só apontam os problemas, mas não se importam com as soluções, uma vez que falar em soluções é falar na mudança de comportamento e atitudes; quem se predispõe a mudar pelo bem da maioria? Quem se predispõe a abrir mão pelo bem da maioria? Quem se predispõe a apoiar o popular pelo bem da maioria, e largar de vez essa desculpa capitalista de que tudo se faz apenas por dinheiro? E essa preguiça me dá realmente muita preguiça de continuar acreditando em alguma melhora desse país de preguiçosos.
O brasileiro é preguiçoso sim, eu concordo, mas a classe média tende a dizer que a preguiça vem do pobre, que não trabalha, por isso é pobre. Entretanto a preguiça real poderia vir da maioria que não gosta e nem quer pensar. A preguiça poderia vir de verdade daqueles que só apontam os problemas, mas não se importam com as soluções, uma vez que falar em soluções é falar na mudança de comportamento e atitudes; quem se predispõe a mudar pelo bem da maioria? Quem se predispõe a abrir mão pelo bem da maioria? Quem se predispõe a apoiar o popular pelo bem da maioria, e largar de vez essa desculpa capitalista de que tudo se faz apenas por dinheiro? E essa preguiça me dá realmente muita preguiça de continuar acreditando em alguma melhora desse país de preguiçosos.
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sábado, 5 de novembro de 2011
Frase XVIII
Licença poética? O caralho! Eu escrevo o que quero e falo como quero. Os ouvidos são opcionais.
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Frases
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
Zeta
Nestes anos intensos
De pura civilização
Sobra-nos palavras para dizer
Mas falta-nos informação.
Nestes anos incríveis
De homens que voam ao céu
Ou que dormem no chão
Falta-nos claramente a visão.
Nestes anos escuros
Cuja externa é claridade
Não sinto que tenho luz
Sinto uma densa obrigação.
Nestes anos tão móveis
Onde a vida que é tão longa
Se passa num breve relampeio
Os homens que andam imóveis estão.
De pura civilização
Sobra-nos palavras para dizer
Mas falta-nos informação.
Nestes anos incríveis
De homens que voam ao céu
Ou que dormem no chão
Falta-nos claramente a visão.
Nestes anos escuros
Cuja externa é claridade
Não sinto que tenho luz
Sinto uma densa obrigação.
Nestes anos tão móveis
Onde a vida que é tão longa
Se passa num breve relampeio
Os homens que andam imóveis estão.
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A Alienação Social em Ensaio Sobre a Cegueira
A alienação social
O presente trabalho tratará da questão da alienação social contida no romance Ensaio sobre a cegueira de José Saramago, e o papel que esta alienação desempenha na sociedade contemporânea. Mas antes de entender o papel a que esta alienação se dá na sociedade, é importante entender sob qual prisma está significada a idéia de alienação. Uma vez que se trata da alienação dentro do meio social, buscaremos a fonte de sua definição numa visão sociológica. A partir daí, com base na definição de alienação utilizada, será investigada a maneira como ela se expressa e o que se pode extrair dela na obra de Saramago.
Sob uma ótica sociológica, a alienação viria a ser uma suposta ignorância individual acerca dos problemas que envolvem a sociedade, ou um isolamento em relação aos demais integrantes do meio social. Estes problemas podem ter origem no próprio agrupamento social afetando aos indivíduos, ou pela via inversa, surgindo de um indivíduo e afetando o grupo social em geral. Utilizando de uma visão de Émile Durkheim, pode-se definir alienação como a inconsciência individual mediante os fatos que envolvem o grupo em que aquele indivíduo está inserido. As conseqüências deste isolamento vão depender do quão influente este indivíduo é no meio social.
Entretanto, extraindo já uma compreensão da obra, se pudermos entender que a sociedade que Saramago tece também pode ser um dos personagens do livro, percebe-se que a alienação não atinge unicamente aos indivíduos, mas pode ser um problema que acomete grupos inteiros quando estão dispersos por uma idéia imaginária que os anestesia da realidade.
A metáfora da cegueira
O caráter simbólico da obra de Saramago constitui uma posição de investigação dos problemas universais das comunidades humanas, e por essa razão, os assuntos que a sua literatura possibilita nos debates críticos podem ser inesgotáveis, uma vez que se espelham também na infinda dificuldade humana de se deparar consigo mesma.
Em Ensaio Sobre a Cegueira, logo de início, enquanto um homem aguarda em seu carro pelo sinal verde do semáforo, repentinamente fica cego, duma cegueira que é descrita como um mar branco. Ao contrário do que se acredita da cegueira comum, que é escura, a cegueira de Saramago é caracterizada pelo excesso de luz. A partir deste evento uma sucessão de personagens vai ficando cego da mesma cegueira branca, um após o outro, seguindo uma lógica a partir do contato que o primeiro cego tem com as demais pessoas, fazendo-nos crer que se trata mesmo de uma epidemia de cegueira. Não fosse a exceção de a mulher do oftalmologista ser imune ao problema, teríamos pouco material para entender que a cegueira não se trata apenas da deficiência visual comum, mas de uma espécie de cegueira social, mental.
Conforme surgem os constantes casos de cegueira, o governo, acreditando tratar-se de uma epidemia, toma a medida preventiva de deixar os cegos sob quarentena no manicômio da cidade, isolando-os dos demais cidadãos, e tão logo, abandonando-os. A simbologia descrita nesse momento do romance trata-se da visão de Saramago sobre as diferenças que a maioria da sociedade determina, para definir onde estão os limites da normalidade versus anormalidade.
Temos a imagem de uma fatalidade que, partindo para um nível profundo de observação, com o desenvolvimento da história torna-se praticamente invisível ao leitor, não fosse a menção constante do autor diante do fator cegueira que acomete a todos os personagens, exceto um. E a partir desta visão quase ingênua da vida social, o esplendor da mensagem está contido no fato de que, com a anulação de um dos cinco sentidos, a condição de vida degrada-se a tal ponto e ao mesmo tempo é tão semelhante à realidade, que nos faz questionar até mesmo os nossos valores mais profundos.
Não se trata de dizer que é por causa da cegueira que as pessoas passam a agir sem o apoio moral do qual antes dependiam, uma vez que elas se vêem em condição de igualdade no tocante ao seu estado físico. Mas que, os resquícios de uma personalidade egoísta naquele modelo de sociedade ao qual foram submetidos, deriva ao caos, novamente, reproduzindo, mesmo diante da igualdade física, as mesmas estruturas da sociedade exterior. Apesar de confinados num manicômio, Saramago nos dá a perspectiva dos isolados sociais, e deixa evidente que, diante de fatores comuns, a anormalidade torna-se normalidade a partir do momento em que nos acomodamos com as novas condições de vida.
A metáfora da cegueira consiste em presumir que tal condição trata-se, na verdade, de uma postura egoísta e indiferente em relação aos semelhantes, e que o caos descrito ao longo do romance não é dedutivo, mas algo que já ocorre quando isolamos os grupos devido as suas diferenças. Não apenas por essa razão, diante deste fato fica implícito na obra que esta visão é parcialmente opcional, pois os cegos sob confinamento ficam no aguardo de uma ajuda externa, acreditando que a sua sobrevivência dependerá tão somente da compaixão de quem está do lado de fora.
Ao mesmo tempo, dentre as incontáveis idéias que podemos extrair da obra, pode-se afirmar que as atitudes inconseqüentes, o estado de degradação, fazendo-os todos retornar ao seu estado primitivo de sobrevivência, deixando de lado os hábitos comuns da vida moderna (ou contemporânea), sejam hábitos de uma polidez social, higiene e pudor, talvez salte tão claramente ao olhar do leitor pelo fato de os cegos, pensando estarem cegos, acreditem também que ninguém os verá fazendo o que estão fazendo, ninguém os verá agindo numa espécie de surdina; ocultos pela sua nova condição física, dando-lhes a ilusão de uma vantagem de obscurecer suas atitudes animais e a despreocupação com alguma vergonha ou justificativa, daí também as ações que nós julgaríamos demasiadas desumanas. E o ponto mais alto é que, Saramago desnuda tão completamente as suas personagens de qualquer defesa, deixando-as tão expostas às suas condições de vida mais naturais, que não importa o obstáculo que eles terão a sua frente, a moral social é arbitrária, e o que está em questão é a sobrevivência.
A questão das hierarquias e do poder
Uma vez confinados, os cegos passam a organizarem-se entre si, e a mulher do médico, sendo a única que é capaz de enxergar, doa-se o máximo que pode para auxiliá-los, sem deixar que se revele o seu segredo, de que é capaz de ver. A cada dia que passa mais pessoas que foram afetadas pela cegueira chegam ao local, e vão se acomodando com podem, à medida que o manicômio vai se tornando incapaz de acomodar tantas pessoas, e de acomodar as necessidades básicas de todos. Os locais que abrigam aos cegos são chamados de alas, e aqui se pode traçar um paralelo entre cada ala com a noção que temos de pátria.
A crítica de Saramago, nesse ponto, volta-se para as relações de poder na sociedade. A começar que ao chegarem ao manicômio, os primeiros cegos tentam se organizar como podem, escolhem um leito que lhe servirá de lar, tal como as sociedades primitivas onde cada membro escolhe um local para morar de acordo com sua conveniência, e ali permanece. Logo então surge a necessidade de um representante para cada ala, que, em nome da maioria, travará relações com os representantes das demais alas, numa espécie de diplomacia.
É questão de tempo para que as alas comecem a disputar entre si pela sobrevivência, e a partir da concepção que cada um tem a respeito da sua condição atual, justificam-se as atitudes arbitrárias, perversas para e contra si próprios, a fim de garantir vantagens individuais em relação àqueles que, por alguma razão, acreditam por si mesmos serem menos poderosos, evidenciados por uma submissão voluntária.
Uma das alas se sobressai às outras, que é a que onde estão os chamados cegos malvados, pelo fato de um deles possuir uma arma de fogo, carregada, e que simboliza e garante a sua dominação sobre as outras alas. A partir daí, os cegos malvados, aproveitando-se das ferramentas próprias de quem está na posição de dominador, permitem-se ao direito de exigir privilégios em troca da, não garantia, mas, autorização da sobrevivência das outras alas, deixando evidente, sem máscaras, que as relações de poder entre as sociedades, se dão através do medo e do autoritarismo, entretanto, ocultados pelos mais diversos mecanismos, dentre eles a moral e o acordo social, para serem citados. Através do seu poder, os cegos malvados começam a exigir tudo o que para eles podem ainda ser julgado de valor material, por mais que não façam uso disso, mas nessa relação de troca em que, aquele que detém o poder sempre exige um tributo pelo benefício que está sendo prestado. Não pode deixar de passar despercebido o fato de que as provisões dadas aos cegos, antes dessa hierarquização, vinha da parte do governo, que também exigia um tributo em troca da alimentação escassa dos cegos, talvez o tributo do isolamento, do esquecimento e abandono, para evitar o constrangimento nacional de ter de lidar com um acontecimento cujas raízes são desconhecidas.
E por mais que Ensaio Sobre a Cegueira faça uma total inversão da atual condição humana, percebe-se tamanha semelhança da ficção com a nossa realidade, diante da possibilidade de degradação total. Ainda assim, mais do que prender-se a uma crítica imatura acerca da individualidade ou do egocentrismo social, Saramago extrapola, a partir desta inversão da condição social, e mostra-nos, a partir de sua dedução, que a sociedade está presa a valores tão ultrapassados e desnecessários, cuja sobrevivência deixa óbvia que são frágeis e descartáveis.
Uma passagem em que está evidente a noção total da degradação humana, por assim dizer, é o momento em que, uma vez acabados os objetos de valor dos cegos, os cegos malvados passam a exigir que as outras alas enviem as mulheres para darem o corpo em troca da alimentação. Todos hesitam no primeiro momento, que após uma decisão final, optam por aceitar em razão da sobrevivência do grupo. Neste momento nada mais parece fazer sentido na sociedade que ali fora construída, os valores relacionados a fidelidade, moral, decência ou indecência, quando a situação torna-se crítica na escolha entre manter os valores e morrer com uma dignidade pouco significativa, condenando também àqueles cuja moral difere, ou simplesmente sobreviver.
O poder está simbolizado pelo mecanismo que, aquele que o detém, submete aquele que se deixa submeter, e numa fala simbólica, como se tivesse consciência da natureza finita do conceito de poder, a mulher do médico entende que uma arma de fogo, mesmo carregada, é inútil uma vez que todas as suas balas são usadas. Ao mesmo tempo, quando entende que a sua condição favorável poderia libertar os demais cegos daquela dominação injusta, acaba por matar o líder dos cegos malvados, dando inspiração para que outra cega ponha aquela ala em chamas, libertando a todos.
Conclusão: A cegueira voluntária e os novos caminhos possíveis
Ao saírem da quarentena, o médico, a mulher do médico, a moça dos óculos escuros, o primeiro cego e sua esposa, o homem com a venda no olho e o garoto estrábico, iniciam uma jornada juntos, e notam que a epidemia acometeu a todos na cidade, talvez no país inteiro e quem saiba até mesmo no mundo inteiro.
Caminham errantes em busca de um novo abrigo, e dali em diante percebem que sua sobrevivência depende da sua relação de troca envolvendo a solidariedade e o bem comum. Os momentos finais do livro revelam pela primeira vez uma postura dos cegos que se permitem conhecer uns aos outros, ainda que inominados, ainda que se denominando pelas suas funções sociais ou suas características exteriores, mas começam a ter uma relação baseada numa nova afetividade, ligados pela compaixão mútua diante de uma condição comum e já não mais sentindo-se diferentes um dos outros.
Abrigaram-se na casa do médico, e foi dali que após terem descoberto mais de si, tornaram a enxergar, um a um, retomando a consciência da normalidade, procurando desvendar os motivos da cegueira. E por mais que procurem investigar o seu significado e as suas causas, seja pelo castigo dos pecados cometidos, ou pela indiferença social, seja pelo excesso de egoísmo ou pela falta de solidariedade, as causas em si ficam a mercê de cada um. Longe de se permitir a um entreguismo total nas relações sociais, Saramago talvez através de um apelo singelo, representado e materializado na mulher do médico, atravessa as obscuridades da razão humana para nos atingir no âmago, e clamar por mais humanidade numa sociedade que está imersa em excessos desnecessários à sobrevivência.
O narrador, como que com uma brincadeira propositada, que manipula uma situação em prol de observar os resultados, fez da cegueira um fator metafórico, e através de suas personagens tão comuns à nossa vida contemporânea, joga ao chão toda a arrogância, petulância e mesquinharia humanas para só então, entender o que se faz de fato com o sentido da visão, de qual olhar ele realmente se refere, como se jogasse na cara do leitor, de maneira violenta, porém na melhor das intenções, aquela máxima de Lacan, a do aprendizado e amadurecimento pelo trauma. Só através deste trauma, passar a perceber o desastre de não enxergar o próximo, e as conseqüências terríveis dessa solidão e isolamentos voluntários.
Referências Bibliográficas
BOCK, Ana Mercês Bahia et al (1988) – Psicologias, Uma Introdução ao Estudo. São Paulo, Editora Saraiva.
COSTA, Horácio (1997). José Saramago – O período formativo. Lisboa, Editorial Caminho.
DURKHEIM, Émile (1973). Coleção Os Pensadores São Paulo, Abril Cultural.
QUINTANEIRO, Tania et al (2003). Um toque de clássicos – Marx, Durkheim, Weber. Belo Horizonte, Editora UFMG.
SARAMAGO, José (1996). Ensaio sobre a cegueira. São Paulo: Cia das Letras.
SILVA, Teresa Cristina Cerdeira da (1989). José Saramago – Entre a história e a ficção: uma saga de portugueses. Lisboa, Publicações Dom Quixote.
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Resenha sobre o Livro Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley
Resenha sobre o Livro Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley
Visão Panorâmica do Momento Histórico
O século XX, de acordo com alguns historiadores, é considerado o mais terrível século de toda a história registrada pelo homem. A razão maior que lhe cabe este título são as inúmeras guerras que cobriram de destroços e sofrimento a passagem do homem por esta parte do tempo Cristão. Num primeiro momento, tal afirmação parece estranha quando colocamos os eventos do século passado em comparação com épocas como a Idade Média, ou a conhecida Antiguidade Clássica, que também foram marcadas por violentas guerras. Entretanto, a medida maior que torna o século XX uma mancha tão insolúvel e uma ferida tão profunda da história humana está no desenvolvimento da tecnológica bélica.
O horror toma conta dos corações daqueles que pasmam diante tantas atrocidades. E a cada época, novas justificativas surgem para condicionar a mentalidade da população, que apesar de ser a maioria, não consegue reagir. O século XX chegou ao ápice da incerteza da vida após a morte, e ao mesmo tempo, a ciência mentiu a devoção que os Iluministas esperavam, e já não mais acolheu os homens como mãe, quando utilizados os potenciais do universo contra o próprio universo. O homem descobriu o caminho cada vez mais eficiente de manter nações inteiras sob controle, utilizando o medo. E foi com medo que muitos atravessaram suas vidas, e não viveram, simplesmente puderam vê-la passando diante dos seus olhos, impassíveis, sem reação.
Neste cenário, a arte perde a cor, porém não perde o brilho. Cinza, vermelho, preto, estas parecem ser as cores predominantes num cenário onde as cidades expandem incontrolavelmente, juntamente com a multiplicação dos habitantes terrestres. Quando se lança um olhar panorâmico, vê-se nitidamente a Primeira Grande Guerra, a Segunda Grande Guerra, as intermináveis guerras civis Africanas contra o neo-colonialismo, os conflitos entre Japão e China, a questão da Índia contra o império britânico, a Guerra Fria entre as potências EUA e URSS, que embora as baixas sejam ínfimas à guerra tradicional, houve o dilaceramento da liberdade do homem, trocada pela estupidificação do homem.
Homens, artistas, surgem como profetas do inevitável, assumem uma posição de denúncia, e até mesmo anúncio de um futuro terrível, um caminho sem volta, como se cantassem o túmulo que nós mesmos cavamos pela excessiva ganância. Homens já desacreditados do homem.
Visão Panorâmica da Obra
Aldous Huxley nos apresenta o seu Admirável Mundo Novo, um arquétipo da Londres que, nos anos 30, ele tentou prever, baseado nas direções científicas e sociais que observados em sua época.
O espaço é em Londres, no ano de “our Ford 632”, algo por volta do ano de 2540 no calendário Gregoriano. A maioria da população é unificada sob os princípios do Estado Mundial (World State); o Estado Mundial é uma sociedade global, que provê recursos em abundância, cujo ideal é alcançar felicidade plena para todos.
A sociedade é dividida em castas, denominadas Alfas, Betas, Gamas, Deltas e Épsolons (em algumas versões, Ípsolons), e cada categoria social possui as suas atribuições e defeitos próprios. Por exemplo, nos Alfas existem ainda a divisão em Alfa Dois Mais, ou Alfa Menos. Todas estas castas tem as suas funções sociais já condicionadas no início da vida, no Centro de Incubação e Condicionamento de Londres, uma espécie de laboratório, que hoje, poderia ser comparado aos laboratórios de inseminação artificial. Entretanto, há uma ressalva.
O que se faz no espaço onde toda a vida humana de Londres tem início é, interromper o seu curso natural, antes mesmo que a pessoa crie vontade própria. Através de impulsos externos, captados pela inteligência cognitiva dos bebês, são impostos os seus gostos, os seus medos, os seus desejos, e até mesmo as suas capacidades. A partir daí já se tem determinados desde o berço qual a função social de cada pessoa nascida, sem lhes dar a chance de escolher um caminho próprio. Apesar das diversas castas, a narração se foca apenas no convívio social entre os Alfas, que são consideradas as pessoas mais privilegiadas da sociedade, tal como a classe elitista da Londres de Huxley.
Há resenhas afirmando que Admirável Mundo Novo era uma crítica às teorias behavioristas de Skinner, as quais Huxley eleva ao extremo e no desenrolar da narração nos mostra a quão falhas elas seriam. Classificado como um romance anti-utópico, ou, distópico, Huxley descreve uma sociedade completamente indiferente à esta condição de determinismo pelo meio, preocupada apenas com o trivial, o prazer próprio.
Inevitáveis comparações entre esta obra e 1984 de Orwell remetem às suas oposições que pretendem demonstrar um mesmo caminho; uma vez que os cidadãos de 1984 são dominados pelo medo, os de Admirável Mundo Novo se deixam dominar pelos prazeres triviais que Londres produz com tamanha abundância. Desta forma, num estado de plena felicidade individual (resultado do pensamento vitoriano), não haveria motivos para se preocupar com questões como o caos social reinante nas outras sociedades. Além do mais, Huxley usa o gancho da crítica à Skinner para captar a trilha pela qual a sociedade Londrina caminhava. Assustadoramente a obra nos incita a fazer constantes paralelos com a sociedade atual.
As personagens são fúteis, indiferentes aos problemas alheios, e repulsas às culturas diferentes. A religião, o casamento, a concepção por meio naturais (relação sexual) e a família são completamente repudiadas por esta sociedade. São devotos do Fordismo, e seu calendário é divido em Antes de Ford e Depois de Ford.
O sexo é visto de uma forma totalmente banalizada, visando apenas o prazer, independente de sentimentos, pois para esta sociedade, o amor não existe mais. O que Huxley nos mostra é a nuvem da plena indiferença que paira sobre uma sociedade que questiona aquele que questiona. Enquanto Orwell teme a destruição da informação, Huxley teme que o excesso de informação atinja um nível de banalização total, tornando-se irrelevante.
Um Breve Resumo da Obra
O personagem Bernard Marx sente-se insatisfeito com o mundo onde vive, em parte porque é fisicamente diferente dos integrantes da sua casta. Num reduto onde vivem pessoas dentro dos moldes do passado uma espécie de "reserva histórica" - semelhante às atuais reservas indígenas - onde preservam-se os costumes "selvagens" do passado (que corresponde à época em que o livro foi escrito), Bernard encontra uma mulher oriunda da civilização, Linda, e o filho dela, John. Bernard vê uma possibilidade de conquista de respeito social pela apresentação de John como um exemplar dos selvagens à sociedade civilizada.
Para a sociedade civilizada, ter um filho era um ato obsceno e impensável, ter uma crença religiosa era um ato de ignorância e de desrespeito à sociedade. Linda, quando chegada à civilização foi rejeitada pela sociedade.
O livro desenvolve-se a partir do contraponto entre esta hipotética civilização ultra-estruturada (com o fim de obter a felicidade de todos os seus membros, qualquer que seja a sua posição social) e as impressões humanas e sensíveis do "selvagem" John que, visto como algo aberrante, cria um fascínio estranho entre os habitantes do "Admirável Mundo Novo".
Aldous Huxley escreveu, mais tarde, outro livro, chamado Retorno ao Admirável Mundo Novo, sobre o assunto: um ensaio onde demonstrava que muitas das "profecias" do seu romance estavam a ser realizadas graças ao "progresso" científico, no que diz respeito à manipulação da vontade de seres humanos.
Bibliografia
HUXLEY, Aldous, Admirável Mundo Novo. 1ª Edição. Tradução de Lino Vallandro. Rio de Janeiro: Editora Globo, 2009.
CEVASCO, M. L.; VALTER, L. S. Rumos da Literatura Inglesa, 1985. São Paulo: Editora Ática. Série Princípios, Volume 11.
HOBSBAWN, E. J. Da revolução industrial inglesa ao imperialismo. 5ª ed. Tradução de Donaldson Magalhães Garschagen. Rio de Janeiro: Editora Forense Universitária, 2009.
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Manuel Bandeira - Correspondência entre Infância e Memória
Manuel Bandeira é considerado pela crítica como um dos maiores poetas da literatura nacional. Seu lirismo inconfundível foi, senão o maior, um dos mais destacados representantes do que era proposto como novos caminhos para a poesia nacional, irradiado a todos os cantos do país a partir do movimento Modernista idealizado na Semana de Arte Moderna de 1922.
O que diferencia Bandeira dos demais poetas seja, talvez, a temática de sua poesia. A complexidade inicial limita-se à estrutura de versos livres, que, mais do que simplesmente soltar versos aleatoriamente no papel, marca a trajetória de seu lirismo e da sua mensagem poética, deixando evidente que até os sinais de pontuação, se levados em consideração, contribuem para uma compreensão mais ampla de sua obra.
Sabemos que para muitos críticos uma obra de arte, quando considerada como tal, ultrapassa o tempo cronológico de seu autor, e trafega livremente por qualquer época entre passado e presente, em qualquer momento ou cultura da história humana. Uma obra de arte veste em todos os homens a idéia universal traduzida pelos olhos do autor que, munido de plena sensibilidade, fala de sentimentos comuns aos homens, mas com tamanha maestria que é como se falasse por todos os homens. Roland Barthes, polêmico crítico de arte francês, era a favor desta concepção de que o verdadeiro artista não detém o controle sobre a sua obra, em outras palavras, desmanchava o mito de “autor-Deus”, pois a obra, quando uma vez exposta ao público, o seu significado transcenderia os limites da sua significância, ou como afirmava que “a morte do autor é o nascimento do leitor”.
Há poetas, e porque não poderia deixar de ser, que fazem de sua obra a história artística de suas próprias vidas, simbolizando com imagens aquilo que não poderiam simbolizar com palavras diretas. O que caracteriza logo a princípio a obra de Manuel Bandeira é uma profunda tristeza e desilusão com a vida, como pode ser lido nos poemas de sua primeira publicação, A Cinza das Horas. Mas longe de ser o comum medo que a juventude tem de enfrentar os longos anos de uma vida inteira, ou quem sabe aquela desilusão pouco justificada dos literatos da elite romântica (diga-se de passagem, Álvarez de Azevedo ou Camilo Castelo Branco), Manuel Bandeira imprime em seus versos uma desilusão que é verdadeira, um desgosto profundo de pender entre a certeza da morte e a dúvida pelo novo dia, resultado de sua doença respiratória. Quando descobriu que tinha tuberculose, partiu para a Suíça para fazer um tratamento, e daí em diante este fato marcaria a sua obra para sempre. E mesmo com o passar dos tempos, vivendo os seus oitenta e dois anos de idade, no amadurecimento, Bandeira não altera a temática de sua poesia, não se deixa seduzir pelos eventos externos à sua personalidade, preservando e sempre prevalecendo a simplicidade do pernambucano que tem como pretensão absoluta simplesmente a vida que lhe foi negada. Massaud Moisés (1995, pg 393) acrescenta que “suas antenas captavam sinais em toda parte, absorviam-nos e transfundiam-nos em mensagens de beleza, mas sem alterar a substância de uma visão do mundo que se manteve fiel a si mesma, no decurso de meio século de elaboração poética” e que a poesia de Manuel Bandeira “constitui uma espécie de diário íntimo, registro lírico dum dia-a-dia em que a Arte era o prato obrigatório”.
No poema a seguir, Desesperança, do livro A Cinza das Horas (1917), temos uma idéia do que era a vida para o autor:
(...)
Assim deverá ser a natureza um dia,
Quando a vida acabar e, astro apagado,
Rodar sobre si mesma estéril e vazia.
O demônio sutil das nevroses enterra
A sua agulha de aço em meu crânio doído.
Ouço a morte chamar-me e esse apelo me aterra...
Minha respiração se faz como um gemido.
Já não entendo a vida, e se mais a aprofundo,
Mais a descompreendo e não lhe acho sentido.
(...)
(Desesperança in A Cinza das Horas)
Mas, mesmo com a sua doença, isso não impediu que Bandeira tentasse viver uma vida normal, sem ter-lhe preso aos pés uma preocupação hedionda com a hora da morte, permitindo-lhe até mesmo fazer de sua própria desgraça uma piada. A seguir um trecho do poema Pneumotórax, do livro Libertinagem (1930):
(...)
- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.
(Pneumotórax in Libertinagem)
Além desta preocupação na vida de Bandeira, outro aspecto que também muito marca a sua obra é a forte ligação que ele tinha com os seus entes queridos. A sua recordação dos anos de infância remonta as imagens de seus avós, das moças que o criaram quando criança, de seus pais, seus irmãos, e todos aqueles por quem ele pudesse creditar algum afeto. Carinhoso e delicado por natureza, nunca deixava de homenagear em suas poesias aqueles a quem tanto devia por sua formação como ser humano. Antes que uma simples menção egocêntrica de sua própria vida, a angústia da qual Bandeira retratava em suas recordações de infância, era traduzida pela pungente dor da saudade, e anos mais tarde, na solidão. Aqui um famoso poema em que falava de sua irmã, O Anjo da Guarda também do livro Libertinagem:
Quando minha irmã morreu,
(Devia ter sido assim)
Um anjo moreno, violento e bom,
- brasileiro
Veio ficar ao pé de mim.
O meu anjo da guarda sorriu
E voltou pra junto do Senhor.
(O Anjo da Guarda in Libertinagem)
Suas recordações, ora melancólicas, ora nos enganando com uma tentativa de querer ser feliz (o que difere do estado em si) quando no fundo, com o olhar mais atento, nota-se um apelo confessionário para aliviar as dores da vida, usa como tentativa de fuga da sua cruel realidade e condição de vida, as lembranças do tempo da infância. Em muitas obras, esta delicadeza, esta ternura juvenil repleta de uma inocência pura, na verdade implica numa tentativa de depositar todas as suas esperanças de alegria na busca das melhores lembranças da sua época de criança, ainda que em misto a uma dor de ora transitar pelo imaginário da memória e aceitação da realidade. Também de Libertinagem, o poema Evocação do Recife, temos um Bandeira passeando pela imagem da cidade natal, através de suas recordações, e ao mesmo tempo, negando um progresso que destrói as suas memórias pueris:
Rua da União...
Como eram lindos os nomes das ruas da minha infância
Rua do Sol
(Tenho medo que hoje se chame do Dr. Fulano de Tal)
Atrás da casa ficava a Rua da Saudade...
... onde se ia fumar escondido
Do lado de lá era o cais da Rua da Aurora...
... onde se ia pescar escondido
(Evocação do Recife in Libertinagem)
Conforme o amadurecimento da sua obra, especialmente a partir de Libertinagem, quando assume de vez a estética modernista, e deixa para trás as suas influências do parnasianismo, ficam cada vez mais evidentes a sua transição nestas recordações da infância e nas suas memórias dos lugares que visitou, dos amigos que não tem mais perto de si, e dos entes queridos. Ora aceitando, ora lamentando a condição de sua vida, Bandeira passará a vida toda passeando pelos caminhos de sua memória, e registrando os momentos presentes e passados, temperados com uma liberdade de versificação refinada.
Sim, já perdi pai, mãe, irmãos.
Perdi a saúde também.
É por isso eu sinto como ninguém o ritmo do jazz-band
(...)
Ninguém se lembra de política...
Nem dos oito mil quilômetros de costa...
O algodão do Seridó é o melhordo mundo? ... Que me importa?
Não há malária nem moléstia de Chagas nem ancilóstomos.
A sereia sibila e o ganzá do jazz-band batuca.
Eu tomo alegria!
(Não Sei Dançar in Libertinangem, 1930)
.........................................................................................................
(...)
És linda como uma história da carochinha...
E eu preciso de ti como precisava de mamãe e papai
(No tempo em que pensava que os ladrões moravam
[no morro atrás de casa e tinha cara de pau).
(Mulheres in Libertinagem, 1930)
Lançando mão de tudo o que a literatura universal lhe dispõe, os seus diversos caminhos poéticos nos remetem a sua versificação livre, não por acaso, que em muito comungam com a sua fuga da dor, ou ao menos, a tentativa do alívio da dor. Em muitos casos, assemelhando-se ao enfermo preso ao leito (que poderíamos pressupor o seu próprio corpo físico), que de lá tudo colhe com o olhar, não obstante, querendo não estar ali, mas lá, no lugar daqueles a quem lhe compete permitir pensar que estão em melhor lugar do que si próprio.
A mesma temática da solidão e das recordações aparece na sua obra mais amadurecida, como em Lira dos Cinquent’anos. Diferente da outra lira, a dos vinte anos, de Álvarez de Azevedo, temos um poeta romântico sim, idealista, modelando imagens em sua mente de homem que atingiu o cerne da maturidade e sabedoria adultas, não mais pela idade do que pela vivência e experiência de vidas, alguém que com a mesma ternura de toda uma vida ainda, sustentada pela preservação da meninice, da doçura da infância, se queixa dos fantasmas que o perseguem pela vida inteira.
Espelho, amigo verdadeiro,
Tu refletes as minhas rugas,
Os meus cabelos brancos,
Os meus olhos míopes e cansados.
Espelho, amigo verdadeiro,
Mestre do realismo exato e minucioso,
Obrigado, obrigado!
Mas se fosses mágico,
Penetrarias até ao fundo desse homem triste,
Descobririas o menino que sustenta esse homem,
O menino que não quer morrer,
Que não morrerá senão comigo,
O menino que todos os anos na véspera do Natal
Pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta.
(Versos de Natal in Lira dos Cinquent’anos)
.........................................................................................................
O córrego é o mesmo
Mesma, aquela árvore,
A casa, o jardim.
Meus passos a esmo
(Os passos e o espírito)
Vão pelo passado,
Ai tão devastado,
Recolhendo triste
Tudo quanto existe
Ainda li de mim
- Mim daqueles tempos!
(Peregrinação in Lira dos Cinquent’anos)
.........................................................................................................
A casa era por aqui...
Onde?Procuro-a e não acho.
Ouço uma voz que esqueci:
É a voz deste mesmo riacho.
Ah quanto tempo passou!
(Foram mais de cinquenta anos.)
Tantos que a morte levou!
(E a vida... nos desenganos...)
A usura fez tábua rasa
Da velha chácara triste:
Não existe mais a casa...
- Mas o menino ainda existe.
(Velha Chácara in Lira dos Cinquent’anos)
Poderiam ser escritas obras repletas de páginas, tentando desvendar o os traços autobiográficos da obra de Manuel Bandeira, e a ponte que ele percorria entre a infância e as recordações. Enquanto, em meio aos gritos rebeldes do modernismo, despojando aquela querência de mudança, tínhamos o poeta que singelamente traçava um olhar brando para a vida. Os vestígios da obra nos permitem pensar que as recordações eram uma fuga e ao mesmo tempo um consolo, da fatalidade da doença tuberculosa à, em seguida, inevitável solidão com a morte dos queridos. Tal delineamento da solidão e da desesperança deu-lhe o costume do sofrer, e na espera da morte, aquela por quem tanto aguardou, talvez para o poeta tenha sido exatamente o tema de sua “Consoada”, talvez tenha lhe dito que o menino que o fortaleceu e manteve vivas as suas memórias, abrandaram-lhe os medos, uma vez que a “indesejada das gentes” era-lhe já a sua íntima parceira.
Referências Bibliográficas
BANDEIRA, Manuel, 2008. Manuel Bandeira de Bolso – Uma Antologia Poética. Editora LP&M Pocket, vol. 675. São Paulo.
BANDEIRA, Manuel, 1961. Manuel Bandeira, Antologia Poética, 7ª edição. Editora Nova Fronteira: Rio de Janeiro.
BARTHES, Roland, 1966. Crítica e Verdade. Série Debates, 2007. Editora Perspectiva: São Paulo.
BOSI, Alfredo, 1997. História Concisa da Literatura Brasileira, 37ª edição. Editora Cultrix: São Paulo.
CANDIDO, Antonio; CASTELLO, José Aderaldo, 1983. Presença da Literatura Brasileira – III Modernismo, 9ª edição. Editora Difel: São Paulo
MOISÉS, Massaud, 1971. A Literatura Brasileira Através dos Textos, 1ª edição. Editora Cultrix: São Paulo.
________________, 1996. História da Literatura Brasileira, Modernismo, 3ª edição, revista e aumentada. Editora Cultrix: São Paulo.
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Alice no País das Maravilhas: Na Sociedade e no Sonho do Século XIX
Alice na Sociedade e no Sonho do Século XIX
Introdução
A literatura não se manifesta sozinha. Sua compreensão depende de um intenso diálogo entre leitor e interlocutor (autor da obra). Também é necessário ter consciência dos processos e o contexto em que a obra foi produzida e dos quais faz parte; já que esses, uma vez quando modificados, altera-se também o sentido do seu entendimento. É com esta afirmação de Goldstein (2007) que observamos que o conteúdo da literatura artística está repleto de um caráter de contestação, manifesto e conscientização e sua função na sociedade varia. Ainda assim, há quem não julgue o seu devido valor, categorizando-a de maneira simplória, como mero entretenimento, desconsiderando o seu poder transformador da sociedade.
Outro problema acerca da literatura está na divisão entre gêneros e estilos. Todorov (2004) observa que analisar uma obra por uma perspectiva de gênero, é um empreendimento muito peculiar; ele leva em consideração que as características em comum de um grupo de obras, categorizadas num gênero específico, podem variar dependendo do tipo de análise levantada. Submetê-las a características comuns a outras obras poderia comprometer a análise individual.
Não obstante, o gosto que alguém adota por um gênero ou estilo literário prevaleceria sobre algumas obras em detrimento de outras, gerando preconceitos por parte do leitor, que desconsideraria a suposição de todos os livros terem uma função transformadora nas sociedades habituadas à leitura, independente da maneira como são expressadas nas suas respectivas estéticas (Romantismo, Realismo, Modernismo, etc.).
A partir destas premissas, pretendemos demonstrar com este artigo que a função de uma obra vai muito além do simples entretenimento. Para demonstrar que tal função transformadora é possível, utilizaremos como objeto de estudo o conto Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll; delimitaremos a análise abordando em alguns momentos da obra, especialmente naqueles que fizerem maior referência ao contexto político e acadêmico, traçando paralelos com o contexto social vivido pelo autor, o momento histórico que ele atravessou durante a sua vida e no momento da concepção da obra.
Existe uma relação entre o estudo sobre os sonhos de Freud, a visão de Eric Hobsbawn sobre a Inglaterra do século XIX, e a obra de Lewis Carroll. A partir desta relação que mostraremos uma evidência de que a literatura, ainda que uma literatura voltada para crianças, exerce a sua função transformadora, além do simples entretenimento.
Nesse sentido, é preciso determinar um caminho para que descortine as teias de relação constantes na obra, evitando o perigo desta idéia se perder no trajeto da análise. Primeiro lançaremos um rápido olhar sobre a biografia de Lewis Carroll, centralizando na história da criação de Alice no País das Maravilhas; o segundo passo será traçar um panorama do contexto histórico em que a obra foi dada a pulso, e as conseqüências para a sociedade da época; em seguida, faremos uma análise da obra do ponto de vista psicanalítico, levantando algumas considerações de Freud em Interpretação dos Sonhos; por fim, traçaremos a relação comum entre todos os ponto, para mostrar uma evidência da função transformadora da literatura, tendo a obra de Carroll como objeto de estudo.
1. Uma tarde dourada e as três versões de Alice
Lewis Carroll é o pseudônimo de Charles Lutwidge Dodgson, primeiro filho de onze, do casal Reverendo Charles Dodgson e Francis Jane Lutwidge. Nasceu no dia 27 de Janeiro de 1832, e foi criado em Daresbury, no auge da Inglaterra Vitoriana. Viveu sua infância em Croft, e concluiu os estudos primários na Rugby School. Continuou sua formação na Christ Church, um college de Oxford, onde se formou em matemática, fazendo parte, mais tarde, do corpo docente, permitindo-lhe uma atuação no ambiente acadêmico.
A biografia mais fiel sobre o Dodgson, ironicamente, foi escrita por ele mesmo. Ele escreveu diários durante quase toda a sua vida, dos quais, 16 volumes sobreviveram, com raras páginas arrancadas.
Inúmeros documentos registraram que uma vasta quantidade de atividades criativas e educativas fez parte da vida de Dodgson. Incontáveis artigos, teses, poemas, paródias, cartas para amigos, discursos, desenhos, revistas de família (uma espécie de antologia com papéis, recortes, fotografias de interesse familiar, prática muito comum no período vitoriano) revelam que Dodgson foi muito além de ser apenas o autor de Alice no País das Maravilhas; além de sua contribuição como escritor, foi fotógrafo, alcançando algum êxito nessa área. Morton N. Cohen teve acesso e organizou boa parte destes documentos pessoais, e em 1995 publicou uma das mais completas biografias sobre Charles L. Dodgson.
Na biografia, Cohen nos mostra que o autor de Alice foi um homem excêntrico, porém ao mesmo tempo amável com os amigos, extremamente religioso e preocupado com as questões morais do espírito e do comportamento humano, muito amoroso com os irmãos mais novos e extremamente atencioso com as crianças que conheceu. A criança, na verdade, é um fator importante na vida de Charles, pois o seu amor por elas (geralmente meninas) que foi consideravelmente responsável pela sua obra.
Henry George Liddell assumiu a reitoria de Christ Church em 1855, no mesmo ano em que Charles foi condecorado como Mestre da Casa, e já era professor de Matemática. Num encontro casual com a Sra. Liddell, Charles conhece Harry e Lorina Liddell, e mais tarde, numa visita informal à reitoria, as outras duas filhas mais novas, Alice e Edith.
Desde então, paralela a sua responsabilidade como professor em Christ Church, Charles passava muito tempo na companhia das meninas Liddell: saía para passeios a barco ou a pé, tirava-lhes fotografias, contava-lhes histórias, criava jogos para entretê-las, nada além daquilo que já era do seu hábito com os seus irmãos menores. Em todas as histórias que inventava, Charles envolvia as suas pequenas ouvintes como personagens do cenário, como uma forma de atribuir-lhes algum ensinamento moral, ou até mesmo como forma de dar-lhes suporte emocional para conseguir encarar o difícil e angustiante mundo real.
No verão de 1862, o cônego Robinson Duckworth e as meninas Edith, Alice e Lorina Liddell (contando respectivamente oito, dez e treze anos), acompanhando Charles num passeio a barco pelo rio Tamisa, escutaram dele uma história em que Alice, seguindo um coelho por uma toca, viveria as mais estranhas aventuras num mundo repleto de fantasia, como sempre foram as histórias que Charles contava para entreter as meninas. Mas aquela em especial estaria destinada a ficar para sempre na história. Logo após o passeio Alice Liddell, no dia seguinte, pediu insistentemente para que Charles escrevesse a história que tinha contado para ela e as irmãs durante o passeio.
Anos mais tarde, a própria Alice Liddell relembraria que aquela história “devia ser melhor do que de costume porque no dia seguinte comecei a importuná-lo, pedindo para que ele a escrevesse pra mim, coisa que nunca fizera antes” (COHEN, 1995, pgs157 e 162).
Charles levou dois anos e meio para concluir o volume, e entregou a Alice um caderno de capa verde, totalmente escrito à mão, com ilustrações próprias, que deu o nome de As Aventuras de Alice sob a Terra, que pode ser considerado a segunda versão da história.
Com as visitas dos amigos à casa do reitor, o caderno verde, exposto numa mesa na sala de estar era de fácil acesso a inúmeros acadêmicos e celebridades, que não resistiam à tentação de mergulhar naquela história escrita para Alice. Rapidamente foi despertada a curiosidade sobre quem seria o autor. Sugestões e recomendações para que Charles publicasse aquela história começaram a surgir por parte dos amigos.
Após grandes insistências, Charles resolveu publicar, reescreveu a história original, acrescentando novas situações, e praticamente duplicou o número de páginas. No ato de publicação criou o seu pseudônimo, Lewis Carroll, uma inversão em Latin do seu primeiro e segundo nome Charles Lutwidge (COHEN, 1995).
A versão definitiva de Alice no País das Maravilhas foi publicada em 1865, com ilustrações de John Tenniel, na época cartunista político da revista Punch. Recebeu críticas tanto positivas quanto negativas, porém, foi em questão de meses que as aventuras descritas em Alice no País das Maravilhas conquistaram leitores por todo o mundo, recebendo traduções para diversas línguas, e até mesmo uma versão para teatro.
Simultaneamente, e como não podia deixar de ser, inevitavelmente, críticos debruçados sobre diversas questões que surgem das personagens excêntricas deste conto peculiar, a aventura que Charles escreveu, apesar de uma origem completamente ingênua, faz uma alusão parodiada do nosso mundo, compondo o País das Maravilhas de forma estranha, mas que em nada difere do que existe no mundo real em termos de relações sociais. A questão é que nesta terceira versão considerada definitiva, Charles teria aproveitado a oportunidade da publicação para rearranjar a história e manifestar, através de seus personagens simbólicos, as suas inquietações e insatisfações com o mundo real.
2 – Uma tarde acinzentada e a Inglaterra no Século XIX.
A Inglaterra do século XIX esteve praticamente toda sob o reinado da Rainha Vitória sucessora de Guilherme IV, que assumiu o trono inglês em 20 de Junho de 1837 até a sua morte, em 22 de Janeiro de 1901; cabe dizer que a Rainha Vitória reinou durante quase todo o período de vida de Charles Dodgson. Muito do que foi o reinado da Rainha Vitória foi acompanhado por Charles. Cohen (1995) afirma que Charles, apesar de não ser uma pessoa ligada às questões mundiais, era muito preocupado com o que acontecia na Inglaterra, especialmente se estas preocupações estivessem voltadas para o ambiente acadêmico, o que em geral, envolvia o seu trabalho.
Os ingleses da Era Vitoriana viram as conseqüências da revolução industrial Inglesa do século XVIII, que à época sequer tinha esta definição; diante dos olhares ansiosos, excitados e assustados, começavam a surgir as formas que foram moldadas por este novo modo de produção e trabalho.
É inevitável falar da revolução industrial inglesa e as suas conseqüências quando se relata o século XIX, pois o surgimento desta nova forma de produção mudou completamente as relações de trabalho, resultando no surgimento de novas classes sociais; em conseqüência disso, todas as relações que compunham o sistema econômico da Inglaterra foram afetados, inclusive o ambiente acadêmico do qual Charles fazia parte, uns em maior escala, outros apenas tendo uma visível alteração na renda familiar.
Eric Hobsbawn (1979) tenta não se posicionar, porém confessa a importância da mudança:
“(...) ela não representou um simples processo de adição e subtração, mas uma mudança social fundamental.” (HOBSBAWN, 1979, pg. 75).
“Sob qualquer aspecto, este foi provavelmente o mais importante acontecimento na história do mundo, pelo menos desde a invenção da agricultura e das cidades. E foi iniciado pela Grã-Bretanha.” (HOBSBAWN, 1962, pg. 45).
Pela primeira vez na história da humanidade, as cidades inflaram e o número de habitantes urbanos ultrapassou o número de habitantes da zona rural. Entretanto, a aristocracia e os proprietários da época foram muito pouco afetados pelas transformações, a não ser pela valorização de suas propriedades. Além do inchaço habitacional urbano, houve também uma explosão na renda destes proprietários, que viram o aumento crescente e violento do surgimento de produtos agrícolas e industrializados, fazendo assim aumentar a sua renda; também o próprio crescimento populacional favorecia as classes dominantes, pois em parte a urbanização ocorria nas terras dos próprios donos das fábricas em demanda de serviços. O crescimento populacional acelerado e desorganizado agravou a pobreza das famílias rurais. A demanda crescente por mão de obra para suprir a gananciosa máquina industrial inglesa fez comum a presença de crianças nas fábricas, trabalhando por baixos salários em atividades que não exigiam tanta disposição física, entretanto submetendo-as a longas jornadas de atividades em situações precárias.
Para Hobsbawn, mudanças neste novo cenário demorariam a acontecer. O seu ceticismo se dá pelo excesso de corrupções das aristocracias, torpes aos crescentes problemas que acometiam a sociedade da época:
“Se o século XVIII foi uma era gloriosa para a aristocracia, a época de Jorge IV (como regente e como rei) foi um paraíso (...). Suas casas de campo multiplicavam-se mais que em qualquer época, exceto a elizabetana. (...) Não tinham de deixar de ser feudais, pois há muito haviam deixado de sê-lo. (...) Igualmente próspera era a vida dos parasitas da sociedade rural (...). Aquele mundo de funcionários e fornecedores da nobreza e dos proprietários de terras e as profissões tradicionais, entorpecidas, corruptas e, à medida que se processava a Revolução Industrial (...). A Igreja e as universidades inglesas pachorreavam, acomodadas em suas rendas, privilégios e abusos, protegidas por suas relações com a nobreza.” (HOBSBAWN,1962, pg. 76)
Intelectuais da época, alarmados, acompanhavam estes fatos que inspravam obras como as de Charles Dickens, com o seu alusivo Oliver Twist, denunciando estas barbáries por meio da literatura corrente. Entretanto, na era vitoriana, uma conturbação abalaria pouco as bases que sustentavam a elite e a mantinham no seu patamar social privilegiado, fazendo parecer que as denúncias soassem ineficientes, uma vez que ainda não existia por parte da própria classe trabalhadora a consciência da exploração a que eram submetidos.
Nos anos de 1850 ocorreram algumas mudanças no sistema de ensino, que transformariam também o governo inglês, propostos pelo ministro da época, William Ewart Gladstone, frutos de recomendações das Comissões Universitárias. Entre as novas leis consistiam:
- A eliminação de regulamentos constitucionais medievais;
- O estabelecimento do critério de méritos para a conferência de bolsas de estudo;
- Abrir oportunidades de ingresso universitárias não apenas para os não-anglicanos, mas para a classe média em geral;
- Instituir um currículo mais amplo e liberal para atender às necessidades dos alunos de todas as categorias acadêmicas;
Embora estas mudanças estivessem demasiadas distantes dos essenciais problemas que acometiam a sociedade inglesa, pois mudariam apenas o aspecto da vida das famílias das classes médias, no círculo social vivido por Charles Dodgson, entretanto, causariam uma grande influência, e esta influência se debruçaria até mesmo sobre a sua obra literária.
3. O País das Maravilhas e a Sociedade Inglesa
Nos anos 1850 apareciam sinais de uma reforma na educação. Charles freqüentou as reuniões da Câmara dos Comuns que envolviam o seu trabalho em Christ Church. Além de participar da polêmica envolvendo a autonomia Irlandesa, quase ao final do século XIX. Suas participações nestas ocasiões eram, mais tarde, expressadas por meio das suas paródias, para expor ao ridículo as opiniões adversas às dele.
Cohen (1995) ressalta que Charles não era a favor das idéias do primeiro ministro Gladstone, entretanto, a reforma na educação era de interesse mútuo:
“Charles demonstrava um interesse crescente por assuntos acadêmicos, por questões relativas à cidade de Oxford e redondezas e até por questões de interesse público em geral. A academia era um alvo fácil da paródia, e Charles aproveitava-se de seu talento natural para ridicularizar convenções e rituais (...)” (COHEN, 1995, pg. 294)
“(...), em 15 de novembro de 1865, teve a idéia de escrever paródias de boletins de notícias americanos baseados em comunicados sobre a Guerra Civil, incorporando alguns fatos da comunidade de Christ Church, e dois dias depois enviou o manuscrito, American Telegrams,para a gráfica. Os “fatos” dizem respeito à batalha dos membros de Christ Church para tirar das mãos dos cônegos parte do seu poder decisório.” (COHEN N., Morton. pg 294)
“Por mais obscuro que pareça hoje, American Telegrams mostra a inclinação de Charles em favor da reforma educacional e administrativa em Christ Church.” (COHEN N., Morton. pg 295)
4. Simbologia e Tipo
Na sua extensa biografia, não há menção com alguma relação próxima a crianças ou pessoas de uma classe que não seja da nobreza ou da classe média, ou até mesmo do grupo de intelectuais que ele convivia. Também é revelado que quanto mais envelhecia, ia se tornando um homem arrogante e ensimesmado, pouco satisfeito com a vida, embora a sua obra tenha seguido um caminho diferente, repleta de bom humor. Seu desagrado crescente era comum ao espírito da época vitoriana, que será discutido num tópico adiante.
Entretanto, vale mencionar que o período de maior triunfo de Charles Dodgson aconteceu na sua juventude, enquanto ainda envolvido com a sua literatura infantil, e mesmo que suas relações com a classe trabalhadora fossem distantes, ele não evitava em revelar o seu repúdio pela sua própria classe fazendo gozações de sua própria classe com alusões simbólicas:
“The Fish-Footman began by producing from under his arm a great letter, nearly as large as himself, and this he handed over to the other, saying, in a solemn tone, ‘For the Duchess. An invitation from the Queen to play croquet.’ The Frog-Footman repeated, only changing the order of the words a little, ‘From the Queen. An invitation for the Duchess to play croquet.’Then they both bowed low, and their curls got entangled together.Alice laughed so much at this, that she had to run back into the wood for the fear of their hearing.” (CARROLL, cap. 6, pg. 59).
Não confundir simbologia com tipologia, pois as personagens do país das Maravilhas não representam uma totalidade social, quando muito, simbolizam um evento ou personalidade que fez parte de seu dia-a-dia, preexistiu em sua obra, e o inspirou a mencioná-lo.
Sobre símbolos e tipos, Eco (1999) esclarece:
“El símbolo se diferencia también del tipo em que puede perfectamente preexistir a la obra como elemento de um repertório mitológico, antropológico, heráldico, mágico. Puede preexistir como “lugar” originariamente literario y actualmente oculto en el convencionalismo, como situación cotidiana que la literatura há hecho tópica y cargada de posibilidades alusivas (el viaje, el sueño, la noche, la madre).”(ECO, 1999, pg. 233-234)
4.1 As Referências Simbólicas de Alice no País das Maravilhas
Não seria por acaso que Charles escolheria um cenário que envolvesse reis e rainhas, nobres, acadêmicos, artistas, professores, fidalgos, entre outras figuras representativas. Fez questão de descrever um ambiente que seria facilmente reconhecido por Alice, quando também é possível dizer que estivesse criando um terreno familiar para disparar as suas críticas à sociedade, ainda que pusilânimes. Entre elas estariam a sua insatisfação com a burocracia acadêmica, o cansaço com a desordem da política inglesa, os preconceitos sobre a criança, a falta de compreensão e respeito com o universo infantil.
Uma referência à desordem e à falta de produtividade das reuniões políticas na Inglaterra pode aparecer no capítulo A Caucus-Race and a Long Tale. Alice e todos os animais estão encharcados por causa da lagoa de lágrimas, e o Dodô, um pássaro que assume uma postura discursiva solene, sugere que a melhor coisa para eles se secarem seria uma Caucus-Race. Em português foi traduzida como “Corrida do Seca-Seca”, mas na versão original em inglês, o duplo sentido torna-se cômico, ao mesmo trágico. Na demonstração do Dodô, a Caucus-race consistia em fazer uma marca circular no chão, e em seguida os animais correriam desordenadamente de um lado a outro, cujo vitorioso dificilmente seria determinado.
A palavra Caucus é de origem norte-americana em referência às reuniões entre os líderes de alguma facção para determinar uma candidatura ou direcionamento político. Quando o Dodô é questionado “But who has won?” ele simplesmente responde “Everybody has won, and all must have prizes.” Nas reuniões das Câmaras Inglesas eram comuns as discussões cujos interesses limitavam-se a um pequeno grupo que não queria abrir mão de seu poder (no caso de Charles, os cônegos e a reitoria de Christ Church), ao mesmo tempo em que estas reuniões eram confusas, sem sentido, e não chegavam a lugar algum.
E as alusões não param até o final da obra:
“The King and Queen of Hearts were seated on their throne when they arrived, with a great crowd assembled about them – all sorts of little birds and beasts, (...)” (CARROLL, cap. 11, pg. 114).
Em referência aos tribunais do parlamento, ou às reuniões na Câmara dos Comuns, ou até mesmo às reuniões entre o corpo docente e a reitoria de Christ Church..
No capítulo sete, A Mad Tea Party, novas possibilidades aparecem.
“Have some wine,” the March Hare said in an encouraging tone. Alice looked all around the table, but there was nothing on it but tea. “I don’t see any wine,” she remarked. “There isn’t any,” said the March Hare. “Then it wasn’t very civil of you to offer it,” said Alice angrily. “It wasn’t very civil of you to sit down without being invited,” said the March Hare. (CARROLL, cap. 7, pg. 73).
“Well, I’d hardly finished the firts verse,” (da canção parodiada de Jane Taylor, Twinkle, twinkle. N.A.) said the Hatter, “when the Queen bawled out ‘He’s murdering the time! Off with his head!’” “How dreadfully savage!” exclaimed Alice. “And ever since that,” the Hatter went on in a mournful tone, “he won’t do a thing I ask! It’s always six o’ clock now.” A bright idea came into Alice’s head. “Is that the reason so many tea-things are put out here?” she asked. “Yes, that’s it,” said the Hatter with a sigh: “it’s always tea-time, and we’ve no time to wash the things between whiles.” “Then you keep moving round, I suppose?” said Alice. “Exactly so,” said the Hatter: “as the things get used up.” “But what happens when you come to the beginning again?” Alice ventured to ask. “Suppose we change the subject,” the March interrupted yawning. (CARROLL, cap. 7, pg. 77).
De acordo com as notas de Martin Gardner, o personagem Mad Hatter (Chapeleiro Louco) tem relações com uma expressão da época: “As Mad as a Hatter”. Parte do que se conhece das origens desta expressão tem a ver com o material utilizado na fabricação de chapéus, feitos de feltro. O mercúrio utilizado para o tratamento do feltro dos chapéus causava envenenamento, e os sintomas mais visíveis eram espasmos que definiram como “Hatter’s shakes”, afetando a visão, os membros e a língua; também causava efeitos alucinógenos. Não por acaso, a figura do Mad Hatter ilustrada por John Tenniel tem muita semelhança com as feições do primeiro ministro Gladstone, de quem Charles discordava das idéias. Quanto à loucura da March Hare (Lebre de Março) está relacionada a uma crença de que as lebres do sexo macho usualmente entravam em frenesi quando estavam no período de cio, que era no mês de março,
Temos aqui outra referência à política. Party também tem duplo sentido, uma vez que o seu significado implica tanto “festa” quanto um “time” ou “grupo” reunido com um propósito em comum. Há um confronto entre Alice e os argumentos e comportamentos esquisitos do Mad Hatter e a March Hare.
Outra alusão simbólica à desordem política surge no capítulo doze Alice’s Evidence, onde está acontecendo um tribunal para julgar quem roubou as tortas da rainha. O motivo do julgamento é inútil, as leis de tribunais são absurdas e até discriminatórias:
At this moment the King called out (...), “Silence!” and read out from his book: “Rule Forty-two: all persons more than a mile high to leave the court.” Everybody looked at Alice. “I’m not a mile high,” said Alice. (CARROLL, cap. 12, pg. 125).
Como qualquer outra obra de literatura, Alice no País das Maravilhas nos permite horas de extensas análises e referências simbólicas, e uma visão ampla de todas estas referências seria impossível num simples artigo. A questão levantada agora seria: o que acontecia a Charles Dodgson, sendo um acadêmico respeitado e admirado pelos colegas, para que a sua crítica limite-se unicamente às paródias e alusões simbólicas, sem fazer referência direta aos alvos de suas insatisfações?
5. Alice e o Sonho
O período vitoriano é mais conhecido pelas regras sociais baseadas em princípios extremamente religiosos, cunhando uma moral rígida, inflexível. Quando a Rainha Vitória assumiu o trono em 1837, a classe média e a burguesia puderam vivenciar uma nova época de prosperidade e de uma aparente paz pós-guerras napoleônicas. Entretanto esta classe ignorava que a Revolução Industrial manchava o histórico do Império Inglês, por conta dos inúmeros problemas que tornava as classes pobres a condições cada vez mais decrépitas, e precárias condições de sobrevivência que só tendiam a se agravar.
A cultura reflexa tinha uma funcionalidade eficiente, pois ainda não existia a organização social para levantes contra a aristocracia. O puritanismo, o decoro e a domesticidade existentes na realeza vitoriana era o comportamento que aristocracia esperava dos seus súditos. A nuvem negra da Revolução Francesa que assombrava as classes dominantes já não era mais uma ameaça, e parte do conservadorismo surgiu como uma medida reacionária ao liberalismo francês.
Embora aparentassem uma civilidade impecável, dentro dos modos formatados pelos aristocratas, a sensação de repressão era inversamente proporcional, e a angústia do cidadão vitoriano perpetuou na difusão de um ideal anti-racionalista, resquícios de uma característica bem marcada da época romântica. A imaginação era exaltada, os poetas não mais demonstravam preocupação em ter versos respeitando uma métrica, pois o sentimento deveria correr livremente.
Charles era um grande admirador dos poetas de seu tempo, cujas idéias influenciaram largamente a sua obra. Dentre os quais, os mais mencionados em sua biografia estão os precursores românticos Samuel Taylor Coleridge, William Woldsworth e o vitoriano Alfred Tennyson, de quem teve a chance de tirar uma fotografia (COHEN, 1995. pg. 197).
A fuga para o universo imaginário era ao mesmo tempo uma fuga da rígida sociedade vitoriana, e os artistas da época tinham consciência disso. As alusões críticas chegavam com pouca força, e a conturbação social resultava em, no máximo, causar o riso. O excesso de individualismo despertava nos cidadãos uma angústia solitária, e a única saída era habitar um mundo idealizado.
O que consideraríamos como absurdo em Alice no País das Maravilhas pode ser vista a partir da psicanálise.
O primeiro ponto a ser observado é a trajetória da aventura da menina Alice, no conto de Carroll. Num resumo breve, Alice está sentada ao lado da irmã, tem a atenção despertada por um coelho vestindo trajes tipicamente vitorianos, seguindo-o impulsivamente. O coelho guia Alice por um túnel, que leva até uma porta, e atrás desta porta, existe o País das Maravilhas, onde vive muitas situações consideradas absurdas, entretanto, de fortes referências simbólicas conforme já foi demonstrado. A justificativa que Charles encontra para explicar todos os eventos ocorridos na trajetória de Alice é a de que a menina estava dormindo e adentrou o mundo dos sonhos, como relata o desfecho da história:
“Wake up, Alice dear!” said her sister. “Why, what a log sleep you’ve had!”
“Oh, I’ve had such a curious dream!” said Alice. And she told her sister, as well as she could remember them, all these strange Adventures of hers that you have just been reading about; (CARROLL, cap. 12, pg. 130).
Partindo do pressuposto Freudiano que a imaginação é o sonho consciente, no estado de vigília, pode-se dizer que Charles tinha alguma consciência de como o sonho funcionava na mente humana, e por isso escolheu o momento de um sonho para justificar todas as aventuras de Alice. Ainda seguindo esta lógica, talvez Charles fosse a própria Alice, e ali estava o seu ideal vitoriano de sociedade, ou, a sua representação simbólica, onírica, de um mundo que tanto o desagradava. Levando em conta a sua religiosidade rigorosa, somada à sua tristeza de ter rompido suas relações com os Liddell (COHEN, pg. 131), além de conviver num período de moralismo extremamente repressor, o único lugar onde Charles poderia discorrer livremente as suas insatisfações seria o seu universo imaginário.
Em Interpretação dos Sonhos, Freud (1900) nos explica que os sonhos são a realização de um desejo, mesmo os sonhos ruins e distorcidos. Através do método empregado para analisar seus pacientes, ele se refere aos sonhos como acontecimentos que se alojam no inconsciente, e despertam ao consciente quando atingimos um estado de relaxamento:
“Tenho observado em meu trabalho psicanalítico que todo o estado de espírito de um homem que esteja refletindo é inteiramente diferente do de um homem que esteja observando seus próprios processos psíquicos (...). Em ambos os casos a atenção deve ser concentrada, mas o homem que está refletindo exerce também a sua faculdade crítica; isso o leva a rejeitar algumas idéias que lhe ocorrem (...). O auto-observador, por outro lado, só precisa dar-se ao trabalho de suprimir sua faculdade crítica. Se tiver êxito nisso, virão a sua consciência inúmeras idéias que de outro modo ele jamais conseguiria captar.” (FREUD, 1900, pg. 122.)
Na época da publicação de Alice, Freud ainda não tinha nascido, e as pesquisas relacionadas aos sonhos só apareceriam cerca de meio-século depois, quando Charles já haveria falecido. A idéia aqui não é demonstrar que Charles descobriu a função psicanalítica dos sonhos, mas, que num estado de sono, as diversas idéias surgem à consciência, até mesmo as absurdas, tal a explicação para o “absurdo” de Alice. Contudo este ainda é o meio do caminho para a conclusão do que estamos propondo.
Prosseguindo com esta lógica, Freud diz que quanto mais repressivo o ambiente mais distorcida será a mensagem, e a mesma lógica funciona nos pensamentos oníricos, resultando em desejos de realizações indisfarçadas:
“(...) nos casos em que a realização de desejo é irreconhecível, em que é disfarçada, deve ter havido alguma inclinação para se erguer uma defesa contra o desejo; e, graças a essa defesa, o desejo é incapaz de se expressar, a não ser de forma distorcida.” (FREUD, 1900, pg. 160).
A personalidade extremamente tímida de Charles o forçava a estas alusões e referências. Alice no País das Maravilhas tem uma figura metalingüística, pois representa a imaginação através do sonho; algo como a imaginação do autor relatando o mundo imaginário da personagem. E levando em consideração que a aparente paz que reinava nas relações sociais dos ingleses, era na verdade, a sua submissão aos comportamentos ditados ao coletivo, é explicável a ocultação das suas críticas:
“(...) O escritor tem de estar precavido contra a censura e, por causa dela, precisa atenuar e distorcer a expressão de sua opinião. Conforme o rigor e a sensibilidade da censura, ele se vê compelido a se abster de certas formas de ataque, ou a falar por meio de alusões em vez de referências diretas, ou tem de ocultar seu pronunciamento objetável sob algum disfarce aparentemente inocente (...).” (FREUD, 1900, pg. 161).
Freud praticamente responde à questão das tendências alusivas. Uma vez reprimidas, elas surgem em forma de sonhos. O sonho da menina Alice, provavelmente era o que Charles discordava do universo infantil, o que o tornava insatisfeito com seus colegas de trabalho, com a sociedade. Mas em respeito às tradições que lhes foram ensinadas no ambiente familiar, ele preferia manter estas insatisfações presas, relatadas apenas em seus diários, ou soltas ordinariamente em versos e paródias, e quando atingindo o máximo das suas angústias, na forma deste criativo universo descrito em Alice no País das Maravilhas.
6. Conclusão
Neste artigo foram levantadas questões de caráter literário, sociológico, histórico e psicanalítico, sem o aprofundamento devido em cada uma destas áreas, o que necessitaria de um espaço maior de publicação. Apresentamos uma espécie de caminho, ou método por assim dizer, para demonstrar que a literatura, quando é lida por uma perspectiva crítica, eleva o seu grau útil, de entretenimento para um objeto de transformação intrapessoal e interpessoal. Mesmo que a literatura esteja voltada para um público infantil, ela não é digna de preconceitos. Demonstramos que uma literatura aparentemente absurda, como Alice no País das Maravilhas está repleta de temas que levantariam discussões sérias sobre a sociedade e o existencialismo.
7. Considerações Finais
Uma das mais completas análises do universo de Alice está na obra de Martin Gardner, The Annotated Alice, que também foi utilizado como base para a pesquisa deste material. Entretanto, o foco do nosso estudo não é parar em Alice no País das Maravilhas, mas revelar com este método, que ele pode ser aplicável a qualquer obra, e ao mesmo tempo fazer valer a finalidade maior da literatura artística, como objeto de manifestação, contestação e conscientização, dentro das idéias propostas pelo autor.
Sabemos que o mundo como se nos apresenta é a mera representação daquilo que idealizamos, e que as relações humanas se dão através da comunicação nos mais diversos graus, e nos mais variados meios. Uma literatura, ainda que por entretenimento, está sempre querendo nos dizer alguma coisa, e os caminhos para buscar este entendimento vão desde a compreensão proposta por outra pessoa, ao entendimento intrapessoal. Esperamos que a prática da leitura, a partir do que aqui foi proposto, esteja sempre aliada à vontade de obter uma transformação interior, e que todas as formas de literatura publicadas, tenham o seu devido mérito dentro das direções que são esperadas pelos seus respectivos autores. A consciência crítica numa leitura torna-nos cuidadosos com a mensagem, ao mesmo tempo em que nos transforma.
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Bibliografia
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DUBY, Georges (org.). História da Vida Privada vol. 3: Da Renascença ao Século das Luzes. 1ª reimpr., 1989. São Paulo: Editora Companha de Bolso; 2009
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